Friday, July 30, 2004

Diário de um jornalista

Constato com bastante agrado que o Diário de um jornalista voltou ao activo e em força, apesar das férias se estarem a aproximar. É interessante o que por lá se escreve, as acesas discussões em torno da questão "o que é ou não jornalismo". Há tanta coisa errada que se passa nas redacções, onde muitas vezes não existem fronteiras definidas entre a redacção e o sector comercial. Conheço o caso de um jornalista que fez uma grande entrevista mas depois, como a empresa do tipo não pôs o anúncio, arquivou-se o trabalho. Inacreditável, não?
Há tanto para falar e discutir em torno do jornalismo...

Thursday, July 29, 2004

Agenda de contactos

Nunca mais me esqueço de uma frase que li um dia, quando a Maria Elisa era ainda jornalista: "a agenda é a mais preciosa ferramenta de um jornalista". Esta frase tomou as suas proporções reais quando, há algum tempo, desapareceu-me a minha agenda de contactos profissionais. Primeiro desesperei, segundo procurei e, finalmente, resignei-me. Ontem encontrei-a, suja e imunda mas intacta. Que alívio!

Horários

Acabei a noite passada a minha segunda entrevista sobre Personalidades de Tomar (Directora do Panteão Nacional), trabalho que o Jornal "O Templario" me encomendou como freelancer. Eram 4 da manhã quando fiz a revisão final. Os jornalistas têm mesmo que ser pessoas flexíveis em relação aos horários. É preciso gostar muito desta profissão para trabalharmos tantas horas, fazendo o intervalo para a sandes mista e o indispensável café...

Wednesday, July 28, 2004

Prof.º Fraústo da Silva, presidente do CCB


"Tomar vai ser sempre a minha cidade"
João José Rodilles Fraústo da Silva nasceu em Tomar a 30 de Agosto de 1933. Actual presidente da Fundação Centro Cultural de Belém e, simultaneamente, presidente do Conselho de Curadores da Fundação Oriente, o seu vasto currículo não deixa margens para dúvidas: estamos na presença de uma grande figura tomarense que já merecia um reconhecimento na terra que o viu crescer e que diz que será a sua “para sempre”.

Doutorado em Química pela Universidade de Oxford, Inglaterra, Fraústo da Silva foi Ministro da Educação do VIII Governo Constitucional, Presidente do Gabinete de Estudos e Planeamento da Acção Educativa (GEPAE), Director do Instituto Superior Técnico, Presidente do Instituto Nacional de Administração Pública, entre outras funções. É autor de 5 livros e 8 manuais didácticos e tem mais de 180 artigos científicos publicados em revistas especializadas. Mas para além disto, há o homem que se orgulha de ter nascido em Tomar e recorda “com muita saudade” o tempo em que estudou no Colégio Nun’ Álvares.

Fraústo da Silva e Tomar

Fraústo da Silva considera que Tomar é hoje “uma cidade diferente” daquela onde viveu, “menos romântica e envolvente”, mas confessa que este sentimento talvez seja apenas “a saudade” do que existiu um dia e a vontade de “retirá-la do tempo para a manter tal como a conheceu e viveu, alimentando assim a recordação e a nostalgia”.
Do seu núcleo familiar, foi o único que nasceu na cidade do Rio Nabão, tendo vivido numa casa perto da Praça de Touros, que actualmente já não existe. “Conservo ainda uma grande ligação a Tomar”, revela ao “O Templário”, recordando que chegou a aprender música (piano) com o “mestre Ventura” da banda Gualdim Pais e que viveu nesta cidade até aos 18 anos, altura em que fez exames de admissão à Universidade, em Santarém. O Professor considera os tempos em que viveu em Tomar como “fascinantes”. A cidade era considerada como “o centro comercial” de uma zona alargada que incluía Torres Novas, Leiria e Abrantes. Naqueles tempos, jogava cartas e bilhar pelos cafés tomarenses e raramente perdia um filme ou um baile. O professor recorda, no livro “Colégios Nun’ Álvares de Tomar” (apresentado na reunião de antigos alunos, em Dezembro de 2000), “a leitaria do Diogo, a Flor-do-Nabão, o Café Paraíso, a Havaneza e a Gráfica, onde comprava “Salgaris, Tintins, Cavaleiro Andante, Texas Jack e revistas afins”. Lembra-se dos jogos de King, que jogava meio às escondidas, do bilhar e do ping-pong, das corridas de touros e respectivas largadas, da feira de Santa Iria e das “sonoras” competições entre as bandas Gualdim Pais e Nabantina. E não esquece os passeios no Mouchão feitos com os amigos, da rua, da cidade, do Colégio que foram seus “companheiros de inúmeras aventuras”.
Apesar de já não visitar a cidade há alguns anos “ainda tem amigos em Tomar”. De Tomar, Fraústo da Silva “orgulha-se”, principalmente, da Festa dos Tabuleiros, Património da Humanidade, embora nunca tenha ajudado a transportar um tabuleiro.

Fraústo da Silva e o Colégio Nun’ Álvares

O colégio Nun’ Álvares sempre foi conhecido por ser um local de ensino “de qualidade” e por ter professores exigentes. Fraústo da Silva era bom aluno, ou melhor, muito bom aluno revelando, já nessa altura, um espírito empreendedor, que viria a confirmar-se no seu percurso profissional. Fraústo da Silva tem em relação ao colégio uma memória associada a “um sentimento de grande respeito e gratidão” por tudo o que o Colégio deu em termos de conhecimento e confiança em si próprio. Fraústo da Silva diz que guarda “melhores recordações” dos professores que teve no colégio do que os que teve na Universidade realçando a forma como encaravam “a sua missão, com seriedade e competência” e “a capacidade” com que transmitiam os conhecimentos. Raúl Lopes, por exemplo, severo e exigente deu-lhe uma “grande segurança e destreza de cálculo” por causa de muitos exercícios para fazer em casa.
Foi também no Colégio que Fraústo da Silva criou o primeiro jornal académico do Colégio Nun’ Alvares, o “Folha de Couve” (ao qual o jornalista Appio Sotto Mayor iria dar mais tarde continuidade) impresso a “stencil” pelo método do carimbo, uma vez que as rotativas só apareceram mais tarde, nome sugerido pelo pai de Frausto da Silva. Era integralmente escrito pelos alunos e dotado de uma veia satírica e humorística dando mais tarde origem ao Folha Nova, um jornal “mais sofisticado”.

Fraústo da Silva e a Química

Filho do advogado Antunes da Silva, “muito conhecido na cidade” segundo nos revelou, o pai queria que fosse Oficial da Marinha para viajar pelo mundo inteiro e porque era uma forma de obter uma “educação aprumada”, Fraústo da Silva decidiu-se pela Química, gosto que desenvolveu quando estudava. Em casa já fazia as suas experiências caseiras, sem grandes sustos, e em 1952 foi estudar Engenharia Química, no Instituto Superior Técnico. No primeiro ano viveu numa República de estudantes e passou com relativa facilidade. No segundo chumbou a Cálculo, e devido a ter ficado doente, não pode repetir o exame na 2.ª fase. Ficou então um ano inteiro a fazer uma única cadeira. Como tinha muito tempo livre, pediu para trabalhar no laboratório, onde aprendeu por experiência própria matéria sobre Química Orgânica e Analítica. Ainda era aluno do quinto ano quando foi convidado para ser assistente na sua universidade. Foi o início da sua esplendorosa carreira académica e científica. Em 1960 fez o doutoramento em Oxford e, de volta a Lisboa, como os doutoramentos feitos no estrangeiro não eram reconhecidos em Portugal, preparou uma nova tese que defendeu em 1965, obtendo a classificação de 19 valores, tornando-se no primeiro doutorado em Química do Instituto Superior Técnico.

Fraústo da Silva e a carreira

Estamos em 1967 quando Fraústo da Silva concorre ao lugar de professor catedrático de Química Analítica, proposta que foi aprovada com unanimidade. A partir desta ocasião, a sua carreira tomou uma força vertiginosa, tendo vindo a substituir o Professor Herculano de Carvalho na regência da sua cadeira e na orientação de investigação no âmbito do Centro de Química da Comissão de Estudos de Energia Nuclear. O seu prestígio aumentava como investigador pelo que o seu nome foi sugerido ao Ministro da Educação, Professor Galvão Telles, que lhe “encomendou” um relatório para inserir no Plano de Fomento, que se estava a preparar. Os resultados deste estudo foram tão bons que foi convidado, no âmbito do Gabinete de Estudos e Planeamento de Acção Educativa (GEPAE) para melhorar o apetrechamento das universidades e centros de investigação, financiados por aquele gabinete. Com a Era de Marcelo Caetano, Galvão Telles saiu dando lugar a José Hermano Saraiva. O presidente do GEPAE também saiu do lugar e o convite a Fraústo da Silva para ocupar este lugar foi quase óbvio. Sob a sua orientação o GEPAE veio a tornar-se num dos organismos mais influentes no Ministério da Educação. Em 1969, Fraústo da Silva aceita o convite para assumir a direcção do Instituto Superior Técnico, depois de muita insistência de Veiga Simão. Durante três anos, simultaneamente com a direcção do GEPAE, Fraústo da Silva lança uma reforma total do ensino de engenharia no I.S.T, reduzindo a duração dos cursos para cinco anos. Mais tarde, esgotado pelas agitadas pressões estudantis, Fraústo da Silva solicitou a sua substituição e passou a dedicar-se exclusivamente ao GEPAE, onde começou a desenvolveu a estimulante tarefa de planear a instalação de novas universidades e institutos politécnicos no país.

Ao abordarmos a carreira do professor Fraústo da Silva temos que falar do tempo
que passou no Brasil. Em 1976, partiu para aquele país, e foi trabalhar para a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seis meses depois de ter iniciado a sua colaboração naquele Instituto, foi convidado para director do Departamento de Química. Ficou no Brasil até 1981 e quis o destino que, numas férias de Natal passadas em Portugal, viesse a conhecer o ministro da Reforma Administrativa, Menéres Pimentel, que o conhecia de nome e queria alguém a quem “confiar” o INA – Instituto Nacional de Administração. Veio a aceitar o convite, após alguma reticência em deixar o Brasil, e o INA passou de um projecto a um caso real de sucesso.
Em Junho de 1982 torna-se Ministro da Educação, por insistência de Francisco Pinto Balsemão. Apesar de ter sido um mandato curto, (o governo estava praticamente demitido no início de 1983), Fraústo da Silva deixou a sua marca no Ministério, sanando alguns conflitos com os sindicatos de professores, abolindo os exames tradicionais nos ensino básico e secundário e reintroduzindo actividades de tempos livres nas escolas.

Conceituado cientista de reputação internacional, Fraústo da Silva, foi recentemente reconhecido pela comunidade científica na revista “Inorganica Chimica Acta” onde todos os autores dedicaram os seus artigos sobre Química ao “Professor Doutor J.J. R. Fraústo da Silva” e o consideraram como “o homem que faz as coisas acontecerem”.

Devido à sua brilhante carreira, Fraústo da Silva viajou um pouco por todo o mundo mas não esquece Tomar. É um homem genial e que consegue ser, simultaneamente, humilde. Por este facto, devemos ter todos, (os tomarenses pelo menos) muito orgulho.


Publicado no Jornal "O Templario", em Julho de 2004

Tuesday, July 27, 2004

A persistência de um génio

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Só mesmo um génio como Salvador Dali (1904-1989) para se lembrar de pintar uma obra com relógios derretidos, com a paisagem catalã em pano de fundo. Foi numa tarde de Agosto, no ano de 1931. Dali estava no seu atelier a petiscar, na companhia de Gala (a russa Elena Dimitriova Diakonova), sua primeira mulher e primeira grande paixão, quando pegou no lápis e nele enrolou uma fatia de queijo camembert, amolecido pelo intenso calor que se fazia sentir. Foi nesse momento que, num dos seus devaneios psicóticos, lhe surgiu a ideia de pintar “A Persistência da Memória”, um dos quadros mais frequentemente associados ao pintor surrealista. Dali demorou apenas duas horas a pintar esta obra e quando Gala viu este quadro  proclamou, com alguma razão, que quem visse este quadro jamais o esqueceria. Em várias composições de Dali se constata este “delírio comestível” vocalizado por uma das suas, entre outras, frases célebres: “Sei o que como, não sei o que faço”. Dali evoca muito nas suas obras  os conceitos “mole” e “duro” que, segundo o pintor, se resumem na fórmula “vida perfeita da morfologia degenerada”. O que é que isto quer dizer? Talvez só Dali o conseguisse explicar. Os relógios derretidos de Dali evocam a irrelevância e a preocupação humana com o tempo e a memória. Na minha opinião,  uma preocupação com a vida, que escoa a cada segundo para um final do qual não há escapatória possível. Os relógios derretidos de Dali,  representam a fragilidade da homem, na condição de ente humano, face à ditadura dos ponteiros do “senhor tempo”, da velhice para a qual caminhamos, da saúde que se “derrete” com o passar dos dias, meses e anos. Neste quadro é forte o sentido da limitação biológica. Entre o sólido e o mole os relógios hipnotizam todos aqueles que param um momento para reflectirem sobre a sua própria vida e o que fizeram com ela.  Arrancamos as folhas do calendário, rumo à anciania, e vamos caminhando  para  uma altura em que o nosso próprio relógio está derretido e já não há maneira de o voltar a solidificar. O único consolo é olhar para trás e ver que não desperdiçamos o nosso tempo com futilidades. Ou melhor, que não desprezamos o nosso efémero tempo útil de vida. Que não vivemos a nossa vida em piloto automático, a obedecer às prioridades dos outros, esquecendo as nossas próprias ambições, os nossos próprios sonhos. Porque os relógios continuam a derreter a cada segundo e a memória dos tempos passados persiste para nos recordar isso mesmo.

publicado na Revista "Artes de Babel", Dezembro de 2003 


O pintor do medo

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"A minha tarefa é estudar a alma, o que equivale dizer estudar-me a mim mesmo... na minha arte tentarei explicar a minha vida e o seu significado”, escreveu um dia o pintor norueguês Edvard Munch no seu Diário de Um Poeta Louco. Munch nasceu na Noruega a 12 de Dezembro de 1963 e foi considerado “o pintor da angústia, do homem moderno, da solidão que este sente nas cidades, do amor fracassado e da morte”. Edvard Munch perdeu a mãe muito cedo, com cinco anos, vítima de tuberculose e, quatro anos mais tarde, morre a sua irmã com a mesma doença. A partir daqui o pintor inicia uma relação com a morte que o vai obcecar para o resto da vida.
De facto, quem nunca se deixou impressionar pelo mais célebre quadro de Munch, “O Grito”, talvez nunca se tenha deixado impressionar pela vida. Este é um quadro muito intenso, que reflecte a angústia deste pintor e a sua visão de existência humana. Munch descreveu a experiência que o levou a pintar esta obra em 1883, com apenas vinte anos, decorria o ano de 1883. “Caminhava eu com dois amigos pela estrada, então o sol pôs-se; de repente, o céu tornou-se vermelho como o sangue. Parei, apoiei-me no muro, inexplicavelmente cansado. Línguas de fogo e sangue estendiam-se sobre o fiorde preto-azulado. Os meus amigos continuaram a andar, enquanto eu ficava para trás tremendo de medo e senti o grito enorme, infinito da natureza”.De certo modo, Munch concentrou nesta obra toda a angústia humana perante o mistério insondável da morte. Pelo menos esta é a imagem mental, a imagem criada, que muitas vezes induz nos seus admiradores. A morte é o maior mistério da vida e é algo a que, nós humanos, estamos, inevitavelmente, destinados. É-nos imposta à nascença e não há nada que possamos fazer para a evitar. No quadro de Munch esta impotência do ser humano face á sua condição de ser mortal sente-se através das cores incandescentes, vivas, tumultuosas que provocam no espectador uma espécie de tontura emocional. Por isso muitos temem Munch, o pintor do medo. Porque muitos temem o confronto com a sua própria mortalidade.Segundo Anna Carola Kraube, “neste quadro as cores e as formas aumentam a força de expressão do motivo”. O Sol desaparece e o eco do grito sacode o céu e a terra . Munch utiliza um pincel nervoso e colorido que passa rapidamente de tons mórbidos a cores incandescentes. Esta técnica sugere ao espectador a inquietação e a angústia que assolava o criador durante a concepção desta obra. Kraube descreveu “O Grito” como “o desfalecimento que o homem sentia dentro de uma realidade cada vez mais complexa e confusa”. O homem contemporâneo vive dentro desta espiral, muitas vezes sem se aperceber deste facto.Em toda a sua obra, Munch parece aplicar a si um dos mandamentos do seu amigo e poeta Hans Jaeger que disse um dia que “cada um deve escrever a sua própria vida”. Munch fez mais do que isso. Pintou a vida de todos nós.

publicado na Revista "Artes de Babel", Setembro de 2003

Primeiro Post

Este post inaugura um blog através do qual pretendo mostrar algum do trabalho que desenvolvo como jornalista freelancer. Aguardo os vossos comentários e sugestões.