Wednesday, July 28, 2004

Prof.º Fraústo da Silva, presidente do CCB


"Tomar vai ser sempre a minha cidade"
João José Rodilles Fraústo da Silva nasceu em Tomar a 30 de Agosto de 1933. Actual presidente da Fundação Centro Cultural de Belém e, simultaneamente, presidente do Conselho de Curadores da Fundação Oriente, o seu vasto currículo não deixa margens para dúvidas: estamos na presença de uma grande figura tomarense que já merecia um reconhecimento na terra que o viu crescer e que diz que será a sua “para sempre”.

Doutorado em Química pela Universidade de Oxford, Inglaterra, Fraústo da Silva foi Ministro da Educação do VIII Governo Constitucional, Presidente do Gabinete de Estudos e Planeamento da Acção Educativa (GEPAE), Director do Instituto Superior Técnico, Presidente do Instituto Nacional de Administração Pública, entre outras funções. É autor de 5 livros e 8 manuais didácticos e tem mais de 180 artigos científicos publicados em revistas especializadas. Mas para além disto, há o homem que se orgulha de ter nascido em Tomar e recorda “com muita saudade” o tempo em que estudou no Colégio Nun’ Álvares.

Fraústo da Silva e Tomar

Fraústo da Silva considera que Tomar é hoje “uma cidade diferente” daquela onde viveu, “menos romântica e envolvente”, mas confessa que este sentimento talvez seja apenas “a saudade” do que existiu um dia e a vontade de “retirá-la do tempo para a manter tal como a conheceu e viveu, alimentando assim a recordação e a nostalgia”.
Do seu núcleo familiar, foi o único que nasceu na cidade do Rio Nabão, tendo vivido numa casa perto da Praça de Touros, que actualmente já não existe. “Conservo ainda uma grande ligação a Tomar”, revela ao “O Templário”, recordando que chegou a aprender música (piano) com o “mestre Ventura” da banda Gualdim Pais e que viveu nesta cidade até aos 18 anos, altura em que fez exames de admissão à Universidade, em Santarém. O Professor considera os tempos em que viveu em Tomar como “fascinantes”. A cidade era considerada como “o centro comercial” de uma zona alargada que incluía Torres Novas, Leiria e Abrantes. Naqueles tempos, jogava cartas e bilhar pelos cafés tomarenses e raramente perdia um filme ou um baile. O professor recorda, no livro “Colégios Nun’ Álvares de Tomar” (apresentado na reunião de antigos alunos, em Dezembro de 2000), “a leitaria do Diogo, a Flor-do-Nabão, o Café Paraíso, a Havaneza e a Gráfica, onde comprava “Salgaris, Tintins, Cavaleiro Andante, Texas Jack e revistas afins”. Lembra-se dos jogos de King, que jogava meio às escondidas, do bilhar e do ping-pong, das corridas de touros e respectivas largadas, da feira de Santa Iria e das “sonoras” competições entre as bandas Gualdim Pais e Nabantina. E não esquece os passeios no Mouchão feitos com os amigos, da rua, da cidade, do Colégio que foram seus “companheiros de inúmeras aventuras”.
Apesar de já não visitar a cidade há alguns anos “ainda tem amigos em Tomar”. De Tomar, Fraústo da Silva “orgulha-se”, principalmente, da Festa dos Tabuleiros, Património da Humanidade, embora nunca tenha ajudado a transportar um tabuleiro.

Fraústo da Silva e o Colégio Nun’ Álvares

O colégio Nun’ Álvares sempre foi conhecido por ser um local de ensino “de qualidade” e por ter professores exigentes. Fraústo da Silva era bom aluno, ou melhor, muito bom aluno revelando, já nessa altura, um espírito empreendedor, que viria a confirmar-se no seu percurso profissional. Fraústo da Silva tem em relação ao colégio uma memória associada a “um sentimento de grande respeito e gratidão” por tudo o que o Colégio deu em termos de conhecimento e confiança em si próprio. Fraústo da Silva diz que guarda “melhores recordações” dos professores que teve no colégio do que os que teve na Universidade realçando a forma como encaravam “a sua missão, com seriedade e competência” e “a capacidade” com que transmitiam os conhecimentos. Raúl Lopes, por exemplo, severo e exigente deu-lhe uma “grande segurança e destreza de cálculo” por causa de muitos exercícios para fazer em casa.
Foi também no Colégio que Fraústo da Silva criou o primeiro jornal académico do Colégio Nun’ Alvares, o “Folha de Couve” (ao qual o jornalista Appio Sotto Mayor iria dar mais tarde continuidade) impresso a “stencil” pelo método do carimbo, uma vez que as rotativas só apareceram mais tarde, nome sugerido pelo pai de Frausto da Silva. Era integralmente escrito pelos alunos e dotado de uma veia satírica e humorística dando mais tarde origem ao Folha Nova, um jornal “mais sofisticado”.

Fraústo da Silva e a Química

Filho do advogado Antunes da Silva, “muito conhecido na cidade” segundo nos revelou, o pai queria que fosse Oficial da Marinha para viajar pelo mundo inteiro e porque era uma forma de obter uma “educação aprumada”, Fraústo da Silva decidiu-se pela Química, gosto que desenvolveu quando estudava. Em casa já fazia as suas experiências caseiras, sem grandes sustos, e em 1952 foi estudar Engenharia Química, no Instituto Superior Técnico. No primeiro ano viveu numa República de estudantes e passou com relativa facilidade. No segundo chumbou a Cálculo, e devido a ter ficado doente, não pode repetir o exame na 2.ª fase. Ficou então um ano inteiro a fazer uma única cadeira. Como tinha muito tempo livre, pediu para trabalhar no laboratório, onde aprendeu por experiência própria matéria sobre Química Orgânica e Analítica. Ainda era aluno do quinto ano quando foi convidado para ser assistente na sua universidade. Foi o início da sua esplendorosa carreira académica e científica. Em 1960 fez o doutoramento em Oxford e, de volta a Lisboa, como os doutoramentos feitos no estrangeiro não eram reconhecidos em Portugal, preparou uma nova tese que defendeu em 1965, obtendo a classificação de 19 valores, tornando-se no primeiro doutorado em Química do Instituto Superior Técnico.

Fraústo da Silva e a carreira

Estamos em 1967 quando Fraústo da Silva concorre ao lugar de professor catedrático de Química Analítica, proposta que foi aprovada com unanimidade. A partir desta ocasião, a sua carreira tomou uma força vertiginosa, tendo vindo a substituir o Professor Herculano de Carvalho na regência da sua cadeira e na orientação de investigação no âmbito do Centro de Química da Comissão de Estudos de Energia Nuclear. O seu prestígio aumentava como investigador pelo que o seu nome foi sugerido ao Ministro da Educação, Professor Galvão Telles, que lhe “encomendou” um relatório para inserir no Plano de Fomento, que se estava a preparar. Os resultados deste estudo foram tão bons que foi convidado, no âmbito do Gabinete de Estudos e Planeamento de Acção Educativa (GEPAE) para melhorar o apetrechamento das universidades e centros de investigação, financiados por aquele gabinete. Com a Era de Marcelo Caetano, Galvão Telles saiu dando lugar a José Hermano Saraiva. O presidente do GEPAE também saiu do lugar e o convite a Fraústo da Silva para ocupar este lugar foi quase óbvio. Sob a sua orientação o GEPAE veio a tornar-se num dos organismos mais influentes no Ministério da Educação. Em 1969, Fraústo da Silva aceita o convite para assumir a direcção do Instituto Superior Técnico, depois de muita insistência de Veiga Simão. Durante três anos, simultaneamente com a direcção do GEPAE, Fraústo da Silva lança uma reforma total do ensino de engenharia no I.S.T, reduzindo a duração dos cursos para cinco anos. Mais tarde, esgotado pelas agitadas pressões estudantis, Fraústo da Silva solicitou a sua substituição e passou a dedicar-se exclusivamente ao GEPAE, onde começou a desenvolveu a estimulante tarefa de planear a instalação de novas universidades e institutos politécnicos no país.

Ao abordarmos a carreira do professor Fraústo da Silva temos que falar do tempo
que passou no Brasil. Em 1976, partiu para aquele país, e foi trabalhar para a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seis meses depois de ter iniciado a sua colaboração naquele Instituto, foi convidado para director do Departamento de Química. Ficou no Brasil até 1981 e quis o destino que, numas férias de Natal passadas em Portugal, viesse a conhecer o ministro da Reforma Administrativa, Menéres Pimentel, que o conhecia de nome e queria alguém a quem “confiar” o INA – Instituto Nacional de Administração. Veio a aceitar o convite, após alguma reticência em deixar o Brasil, e o INA passou de um projecto a um caso real de sucesso.
Em Junho de 1982 torna-se Ministro da Educação, por insistência de Francisco Pinto Balsemão. Apesar de ter sido um mandato curto, (o governo estava praticamente demitido no início de 1983), Fraústo da Silva deixou a sua marca no Ministério, sanando alguns conflitos com os sindicatos de professores, abolindo os exames tradicionais nos ensino básico e secundário e reintroduzindo actividades de tempos livres nas escolas.

Conceituado cientista de reputação internacional, Fraústo da Silva, foi recentemente reconhecido pela comunidade científica na revista “Inorganica Chimica Acta” onde todos os autores dedicaram os seus artigos sobre Química ao “Professor Doutor J.J. R. Fraústo da Silva” e o consideraram como “o homem que faz as coisas acontecerem”.

Devido à sua brilhante carreira, Fraústo da Silva viajou um pouco por todo o mundo mas não esquece Tomar. É um homem genial e que consegue ser, simultaneamente, humilde. Por este facto, devemos ter todos, (os tomarenses pelo menos) muito orgulho.


Publicado no Jornal "O Templario", em Julho de 2004

2 Comments:

Anonymous Order Fluoxetine said...

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Anonymous Anonymous said...

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