Wednesday, September 22, 2004

Clube de Jornalistas

Sou a sócia n.º 690 (num universo de mais de 10 mil profissionais) do Clube de Jornalistas, que infelizmente ainda não tem página na internet. Fiz-me sócia muito por causa da excelente revista "Jornalismo& Jornalistas" que editam trimestralmente. A deste mês traz uma entrevista fantástica a Ana Sousa Dias.

Museu da Imprensa mostra “O 11 de Setembro na Imprensa Mundial”

O Museu Nacional da Imprensa (MNI) inaugurou, na noite de 10 de Setembro, a exposição “O 11 de Setembro na Imprensa Mundial”, que estará patente, em simultâneo, nas instalações do Museu no Porto e no núcleo de Celorico de Basto.
A mostra – aberta ao público até 30 de Setembro – apresenta dezenas de jornais e revistas de vários países, privilegiando as edições de 11 e 12 de Setembro de 2001, mas sem deixar de apresentar edições de 2002 e 2003.

Tuesday, September 21, 2004

Museu Virtual de Imprensa

descobri por acaso que existe o Museu Virtual de Imprensa. Vão lá espreitar, é uma delícia.

Friday, September 17, 2004

Jornalismo

Vantagens:

- Todos os dias, um dia diferente;
- Um desafio constante contar a "estória" ao leitor;
- Contactos diversificados, com pessoas distintas;
- Todos os dias, aprender factos novos;
- Flexibilidade de horários.

Desvantagens:

- muito trabalho, pouca recompensa monetária;
- muito conhecimento, mas pouco tempo para apronfudar esse conhecimento;
- a competitividade desenfreada entre os colegas.

Cândida Pinto e Sandra Claudino recebem Prémio AMI

A sexta edição do Prémio AMI- Jornalismo Contra a Indiferença, distingui este ano o trabalho das jornalistas Cândida Pinto, que pertence à SIC, e Sandra Claudino, da RDP África, noticiou o Diário Digital. Mulheres de Bagdade foi a reportagem que valeu o prémio a Cândida Pinto, enquanto Sandra Claudino viu ser premiado o seu trabalho Marcados pela Guerra. Ambos foram distinguidos com um diploma e um prémio monetário no valor de 15 mil euros. As jornalistas levaram também para casa uma escultura de João Cutileiro.


in http://www.meiosepublicidade.pt/?id=7343

Thursday, September 16, 2004

Ana Sousa Dias recebe Prémio Gazeta

“Ser jornalista é ter um acesso directo aos que fazem o mundo acontecer e ter a possibilidade de contar as novidades aos outros. É um privilégio, é assim que o entendo, e deve ser usado com sensibilidade e rigor” - afirmou Ana Sousa Dias na cerimónia de entrega do Prémio Gazeta 2003, a 13 de Setembro, que lhe foi atribuído pelo programa “Por Outro Lado”, que conduz desde Janeiro de 2001, na RTP 2.
Ao agradecer a distinção, Ana Sousa Dias deu de certo modo a receita do sucesso do seu programa ao sublinhar que os jornalistas nunca devem perder de vista que são “os contadores da história". “Como numa música ou num texto literário, a técnica deve estar toda lá dentro mas deve ser invisível, tal como nós próprios temos de ter em conta que o nosso papel é acessório. Esta é a forma de fazer jornalismo da larga maioria dos jornalistas, dos que não são reconhecidos na rua, dos que não se colocam nos bicos dos pés mas que diariamente estão no cerne da nossa profissão - a notícia. Boa ou má, a notícia é essencial para que nós todos, cidadãos, possamos tomar decisões”.

in http://www.jornalistas.online.pt/noticia.asp?id=2460&idCanal=410

Friday, September 10, 2004

Freeport de Alcochete inaugura sem licenças

"Era completamente ridículo se, por uma questão de menor importância, se impedisse a realização de um evento desta natureza”. São palavras do presidente da Câmara de Alcochete, José Inocêncio, que põe fim à polémica dos últimos dias, em torno do processo de licenciamento do ‘outlet’. O autarca refere que, “a partir do momento em que foram dadas garantias com a entrega da documentação definitiva do projecto", o processo pode continuar.

O autarca admite que o 'outlet' da Freeport “foi inaugurado sem licença de utilização”, embora a empresa tenha procedido à entrega dos documentos que faltavam para o seu licenciamento. Segundo José Dias Inocêncio, “faltava entregar um documento fundamental que era o projecto de arquitectura definitivo com todas as alterações previstas”. Sem este projecto era “impossível” para a autarquia emitir a licença de utilização.

O autarca socialista adianta que se trata de uma situação “normal”, e frisa mesmo que “99% dos estabelecimentos desta natureza abrem as portas antes de ser emitida a licença de utilização”. Depois do autarca ter afirmado na comunicação social que não se deslocava a inauguração do ‘outlet’, tudo aconteceu “muito rápido”. “Em cerca de 24 horas a Freeport procedeu à entrega de toda a documentação necessária na Câmara Municipal”, pouco tempo antes da cerimónia de inauguração daquele que é considerado o maior 'outlet' da Europa.

Segundo o autarca socialista, "ainda não houve tempo para passar a licença de utilização” porque “os documentos entregues ainda não foram analisados”. No entanto, a regularização do projecto “é apenas uma questão de tempo”. Para José Inocêncio, um evento desta natureza, “com projecção internacional e que contou com a presença de elementos da família real britânica”, não poderia deixar de se realizar, por “uma questão burocrática” como é a análise de documentação.

José Inocêncio comenta também as críticas feitas pelos dirigentes da Federação Nacional do Comércio, que apelaram quarta-feira ao "imediato encerramento" do novo Freeport de Alcochete por falta de licença de utilização comercial. O presidente da autarquia refere que esta associação representa um grande número de lojistas que “têm muitas queixas em termos globais”, e adianta que, naquele concelho, “não houve um único comerciante que reclamasse contra o novo empreendimento comercial”.

Empreendimento demonstra vitalidade do concelho

Para o ministro das Cidades, José Luís Arnaut, o investimento da Freeport Leisure em Alcochete representa “a grande confiança que os empresários estrangeiros depositam em Portugal”. O ‘outlet’ vai criar mais de cinco mil postos de trabalho, directos e indirectos, e isto é, no entender do governante, “um sinal da grande vitalidade do concelho e de país”. O ministro mostra também grande confiança na retoma da economia portuguesa e refere que “os últimos dados económicos referentes a Agosto consolidam o crescimento económico do país”.

O presidente da Freeport, Sean Collidge, mostra-se também “muito satisfeito” com a abertura do empreendimento em Alcochete. Reconhece que “ainda há um longo caminho a percorrer”, mas acredita que todas as entidades envolvidas “vão ficar contentes com o projecto”.

A festa da inauguração oficial do Freeport de Alcochete contou com as actuações da banda portuguesa GNR e do cantor pop britânico Tom Jones, que actuaram perante centenas de espectadores. O maior ‘outlet’ da Europa ocupa uma área equivalente a 55 estádios de futebol, reunindo 240 lojas, 40 restaurantes, 21 salas de cinema com capacidade para 5.000 lugares e um anfiteatro ao ar livre, para espectáculos de música e animação.


notícia publicada no Jornal Setúbal na Rede a 10/09/04

Crónica de uma inauguração

O que eu vi na cerimónia de inauguração do Freeport Alcochete: Uma parafernália de jornalistas esteve presente para registar o acontecimento. As televisões não faltaram. A equipa do "Extase" (SIC) chegou mais tarde. Todo o jet-set português. Lili Caneças foi interpelada pelo segurança que lhe perguntou se tinha convite. A princesa Sophie tropeçou mas não perdeu a pose. José Castel Branco no seu estilo inconfundível. Camadas de maquilhagem. Alexandra Fernandes, a ex-menina-da metereologia, na entrada da tenda VIP para tirar fotografias com os colunáveis que vinham para jantar. Uma fogueira de vaidades...

Thursday, September 09, 2004

Freeport

Hoje vou fazer o trabalho de inauguração oficial do Freeport em Alcochete. Estou muito entusiamada. Vamos ver como corre...

Monday, September 06, 2004

Levanta-te e Colabora

Como é gravado um programa ao vivo


Assistir à gravação ao vivo de um programa de “stand-up comedy” como o “Levanta-te e Ri” (SIC, 2ª Feiras, 24h00) é ganhar automaticamente direito a duas horas e meia de boa disposição. Antes do programa entrar em casa dos telespectadores já faz quase meia hora que o brasileiro Dinho anima o público, contando piadas e interagindo com a plateia. “Atenção aí ó people... Faltam dez minutos para o programa começar..”, avisa, bracejando veemente. Ainda há cadeiras vazias na sala. “Os bilhetes estão todos vendidos?”, pergunta o brasuca. “Não”, indica um elemento da equipa de produção. “Xi... danou-se”, responde Dinho, provocando uma gargalhada geral na plateia. “Apaguem os cigarros, todos a sentar direitinho nas cadeiras!”, ordena com humor.

Com o bilhete na mão, à espera que o espectáculo comece está Tiago Freitas, um jovem de 16 anos que conseguiu convencer a mãe Helena a acompanhá-lo. “Venho porque acho piada ao programa, que vejo sempre na televisão”, diz com um grande sorriso. Ver o Fernando Rocha, o seu artista preferido, foi a grande motivação do Tiago que não se importou de pagar 10 euros para ter acesso a um lugar no Fórum Luisa Tody, em Setúbal. O tempo passa rapidamente. Antes do programa começar pede-se a colaboração do público e ensaiam-se os chavões do agente Simões e do Fernando Rocha. “Por favor sorriam na hora em que vos filmarem”, pede o brasileiro à plateia.

O ambiente na sala é muito descontraído e o público ouve atentamente o produtor. “Desliguem os telemóveis e deitem as pastilhas elásticas fora”. Fazem-se os últimos testes ao som e pede-se ao público para bater palmas, assobiar, fazer barulho. Depois dos testes, o silêncio predomina e faz-se a contagem decrescente para entrar em directo.

00h17m - Marco Horácio entra e a plateia delira espontaneamente. Desta vez, e como o programa está a ser transmitido em directo da cidade de Setúbal, não faltam referências humorísticas a Odete Santos, José Mourinho e nem o “Elmano Sadino”, Barbosa de Bocage, escapa ao rol espirituoso. “Se Bocage foi preso por ter escrito poemas eróticos o que é que aconteceria a Carla Matadinho naquela altura?”, remata antes de anunciar a entrada de Milton, o primeiro humorista a actuar esta noite, que entra a matar “Tenho duas notícias para vós: uma boa e uma má... a boa é que Durão Barroso vai-se embora do país. A má é que Paulo Portas fica.” A gargalhada é geral. O espectáculo continua com a intervenção de Eduardo Madeira. Lili Caneças é a vitima preferida na actuação desta noite deste cómico, que integra o divertido dueto musical Cebola Mol.

Chega ao fim a primeira parte e a correria instala-se na plateia. O brasileiro Dinho volta a subir ao palco e lança um aviso. “Atenção público, atenção assistentes, são 9 minutos de intervalo apenas”. As pessoas cumprem a ordem e levantam-se apressadas. Muitos vão para o hall matar o vício, enchendo o espaço de fumo. A fila na casa de banho não é grande mas o bar está cheio. Os operadores de câmara falam entre si e o pessoal da equipa de produção combina os detalhes da segunda parte. O tempo passa rapidamente e Dinho avisa o público que “está na hora de todo o mundo sentar”. Observa a sala atentamente e pergunta apontando para uma cadeira vazia “Falta alguém aí?” Respondem que não e o animador pede para toda a gente se levantar e avançar uma cadeira. O público colabora sem qualquer tipo de hesitação.

01h10m – Começa a segunda parte do programa. “E salta Horácio, e salta Horácio, Olé, Olé”, entoa a plateia. O agente Simões entra em cena e o público dispara o que ensaiou antes do programa começar. Dinho dá uma ajuda aos mais esquecidos e levanta os braços, qual maestro a conduzir a sua banda. Apesar do avançado da hora vive-se um ambiente de energia contagiante na velha sala de espectáculos. “Dizem que os africanos tem mais poder sexual que os europeus... mas, por acaso, o Zézé Camarinha é angolano? O Tomás Taveira é guineense?”, dispara o apresentador. Nova risada geral. Para captar a expressão feliz do público um operador de câmara móvel e um colega, que segura o cabo, suam as estopinhas e percorrem toda a sala num vaivém desenfreado. O objectivo é surpreender o público a rir, filmando bem de perto algumas carinhas larocas que piscam o olho para a objectiva.

Novo intervalo, nova correria. “Não se esqueçam de tirar a pastilha elástica antes de entrarmos no ar”, avisa Dinho. “Está a ser um bom espectáculo”, dizem as amigas Rita e Sandra, ambas de 19 anos, que esta noite vieram para ver o Bruno Nogueira mas viram as suas expectativas goradas pois o nome do jovem não faz parte das actuações da noite. Susana e Pedro, um simpático casal de namorados, espectadores assíduos do programa em casa, aproveitaram o facto de estar de férias para se divertirem um pouco. “É a primeira vez que assistimos à gravação de um programa e está a ser muito engraçado”, diz a jovem. Os 9 minutos de intervalo passam rapidamente mas ainda há tempo para ensaiar uma vez mais o refrão da entrada de Fernando Rocha, que já está na ponta da língua de todos. Batem-se muitas palmas e... já estamos na terceira parte e última parte do programa.

01h48m – Depois de Marco Horácio, entra em cena o mais esperado da noite Fernando Rocha. A maioria não sabe, mas a repórter descobriu que o artista traz o mesmo repertório da semana passada, uma vez que nessa emissão um corte de energia interrompeu abruptamente a transmissão para casa. Quando Rocha menciona o nome Tíbúrcio o publico ri desalmadamente, mesmo antes da anedota ser contada. “És o maior”, grita alguém da plateia. “Vocês é que são os maiores”, responde o artista. O espectáculo prossegue e, por razões linguísticas, não podemos descrever aqui o que se passou. Podemos apenas garantir que foi muito divertido.

02h16m – Acaba o programa. Os artistas sobem ao palco e despedem-se. As pessoas levantam-se, sem pressa, e continuam a comentar o espectáculo. “Foi muito divertido”, ouve-se na sala. Nós confirmamos.


Fernando Rocha


“Vou beber inspiração ao público”

No final do espectáculo, o camarim improvisado de Fernando Rocha encontra-se cheio de pequenos fãs que querem um autógrafo ou tirar uma fotografia com o artista. Apesar de estar visivelmente cansado, Rocha atende-os com simpatia, diz mais umas piadas, mete-se com os mais tímidos. “Vou beber inspiração para as minhas personagens ao público e aos meus amigos”, revela. De facto, é preciso muita imaginação para reinventar em cada espectáculo novas situações para a Rosa Peixeira, a Mantubina, o Tone e o Tibúrcio. “Vejo sempre o lado engraçado das coisas por mais macabra que seja a situação”, diz, enquanto assina a t-shirt de mais um fã. Em relação ao seu estilo picante de humor, Fernando Rocha diz que é muitas vezes abordado na rua por pessoas mais velhas que dizem não aprovar a sua verbosidade. “O caso mais engraçado que tive recentemente foi uma senhora, de idade já avançada, que me abordou na rua e disse que ouviu o meu Cd e que este continha muitos palavrões”. O artista tentou desculpar-se e respondeu que era natural haver palavrões uma vez que é o estilo “a que habitualmente recorre”. A senhora confirmou novamente, replicando “pois é, e a anedota número 25 é a piorzinha delas todas”.

Thursday, September 02, 2004

Iria Esteves Caetano

Directora do Panteão Nacional

“A minha relação com Tomar será sempre profunda”

Iria Esteves Caetano nasceu em Tomar a 20 de Outubro de 1949 e por isso “ganhou” o nome da santa da cidade. Actual directora do Panteão Nacional, considera que este monumento alcançou uma maior visibilidade pública depois da cerimónia de transladação do corpo de Amália Rodrigues, a 8 de Julho de 2001, com as grandes romarias de gente anónima que ali se deslocaram para prestar homenagem à diva do fado nos meses que se seguiram e que continuam a ocorrer até hoje. “Depois de Amália acho que as pessoas olham para o Panteão Nacional com serenidade e acho que é esse um dos objectivos de um panteão, transformar um processo doloroso num processo de aceitação”, disse-nos. Na entrevista que concedeu ao nosso jornal, Iria Caetano recorda ainda, sempre de forma optimista e sem qualquer tipo de saudosismo, a cidade da sua meninice e a feira de Santa Iria “das farturas, dos carrosséis e do circo”. Uma tomarense fascinante, que “O Templário” foi conhecer melhor.

Iria, como a Santa
Filha, sobrinha e neta única, Iria Esteves Caetano nasceu “em cuidados” numa clínica particular, na Rua Serpa Pinto. “O meu pai perguntou ao meu avô que nome se havia de dar à criança e este respondeu que, se nasceu no dia da Santa, é justo que seja Iria”. Foi assim que nasceu Iria. Durante muitos anos teve uma certa dificuldade em compatibilizar-se com o seu nome pois, naquela época, todas as suas amigas se chamavam “Ana Maria, Margarida e Helena” e o facto de ter um nome invulgar causava-lhe “alguma estranheza”. Só mais tarde é que começou a achar graça ao seu nome. E nunca é demais relembrar a história da Santa Iria. Reza a lenda que, numa quinta dos arredores da cidade, viviam Hermegido e Eugénia, que tiveram uma filha de nome Iria, “tão rica em dotes físicos como morais”. Quando a jovem atingiu a adolescência, Célio, seu tio materno, confiou a sua educação ao monge Remígio, que considerava “digno de tão delicada missão”. Iria conseguiu reunir, desde logo, a simpatia das pessoas da povoação, em especial a dos moços e fidalgos, que disputavam entre si as virtudes da jovem. No leque de pretendentes, destacava-se o jovem Britaldo que, rendido a tanta beleza, se apaixonou loucamente por Iria, chegando mesmo a adoecer por causa desta paixão. Iria, movida pela caridade cristã, convenceu-o da impossibilidade do seu casamento, pois fizera voto de virgindade. Deste amor, teve conhecimento o monge Remígio, a quem a beleza da donzela também não era indiferente. Louco de ciúmes, o monge fez com que Iria tomasse uma tisana embruxada, provocando-lhe sinais de gravidez. Britaldo, julgando-se enganado pela jovem, encarregou um subordinado de matar Iria. E assim, a 20 de Outubro do ano 653, quando Iria rezava devotamente as suas orações numa capelinha junto ao rio Nabão, Banaão, enterrou-lhe no peito um punhal, e lançou o seu corpo às águas. O corpo de Iria, segundo reza a lenda, seguiu rio abaixo, sendo repelido na Barquinha, afastado da Chamusca, indo parar finalmente em “Scalabis”, onde milagrosamente a envolveu um sepulcro de mármore. A partir daí “Scalabis” tomou o nome da Santa Virgem e Mártir, Sant' Irene, hoje Santarém.



De Tomar para Santarém, como a Santa
Iria Esteves Caetano estudou no Colégio Nun’Alvares até aos doze anos de idade. “Ainda sou do tempo do Dr. Raúl Lopes”, recorda ao “O Templário”. Desses tempos, Iria Caetano lembra-se particularmente “do terraço do colégio feminino” onde “as meninas estavam proibidas de chegar às grades por causa dos meninos”. O seu percurso escolar no colégio foi interrompido quando o pai foi trabalhar para o Tribunal do Trabalho de Santarém e levou a família com ele. “Fiz um pouco o percurso da Santa Iria de Tomar para Santarém”, brinca a interlocutora. Viveu na capital de distrito até aos 16 anos, altura em que, uma vez mais devido à mudança de trabalho do pai, vai viver para Lisboa, tendo vindo a acabar o liceu no Maria Amalia Vaz de Carvalho. Seguiu-se a entrada na faculdade em 1969, onde ingressou no curso de Filologias Germânicas, na Universidade Clássica de Lisboa. A escolha do curso deveu-se a um certo “fascínio”, na época, pela cultura anglo-americana. “Naquele tempo tudo se passava em Londres”, revela-nos e este era “um curso próprio para meninas” que estavam “destinadas” a ser professoras. Mas, no caso particular de Iria Caetano, este curso foi “uma escolha pessoal, não pressionada”. Seguiu-se uma segunda licenciatura no curso de Línguas e Literaturas Modernas porque, segundo nos conta, depois de Londres ,“tudo o que era interessante passou a vir de Nova Iorque”.

O caminho de Iria
A carreira de Iria Esteves Caetano evoluiu de maneira gradual e interessante. “Comecei a como professora”, revelou-nos. Ficou a dar aulas no Liceu Pedro Nunes, em 1979, e foi professora durante 5 ou 6 anos. Ao fim deste tempo e devido ao surgimento de alguns problemas de voz, começou a viragem em termos profissionais. “Achei que com a idade iria sofrer bastante com problemas de garganta”, revelou-nos, pelo que quando, em 1983, surgiu a oportunidade de trabalhar como técnica superior do Departamento de Museus do Instituto Português do Património Cultural (IPPC) não hesitou. “A partir daí nunca mais deixei de gostar das áreas da cultura e património”, confessou.
Trabalhou durante seis anos no Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) e, a certa altura, é convidada para funções de chefia de divisão para as Relações Exteriores, porque dominava 4 línguas e tinha experiência a dar aulas. Em Portugal, viviam-se os tempos de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia e Iria Caetano participa em muitas das reuniões que se fazem em Estrasburgo.
Estamos, então, em 1997, e estava vaga a direcção do Panteão Nacional, monumento que se encontrava “apagado” em termos de visibilidade pública. “Fui convidada para ir levantar aquele monumento e aceitei”, recorda com algum embargo na voz.


O destino de Iria
O Panteão Nacional é, para a nossa interlocutora, um monumento com uma “carga simbólica profunda”, uma vez que aborda a relação das pessoas com o seu destino ou seja com o ciclo natural “vida e morte”. Embora este seja o “monumento próprio” para homenagear a vida e obra das grandes figuras da sociedade portuguesa, para Iria Caetano é evidente que “quando se pensa na morte de uma grande personalidade relacionamos essa perda com a partida daqueles que nos são mais próximos”. Iria Esteves Caetano é bastante pragmática no que diz respeito ao destino de cada um. “Um momento de despedida tem sempre uma carga bastante profunda e violenta pelo que temos que fazer da nossa vida o melhor que pudermos”, afirma. Mas, para a directora do monumento, não é a morte o que se pretende evocar no Panteão Nacional. “O Panteão não é um grande jazigo”, afirma convictamente. “Quando iniciei funções, deparei-me com um monumento que estava degradado e que desde 1966 não era alvo de obras”, contou ao “O Templário”. Fizeram-se, então, obras de rejuvenescimento no Panteão durante o ano 2000, obras a cargo do IPPAR, com o objectivo de nele se realizarem diferentes actividades culturais. Desde então, a “vida” entrou dentro do monumento, branco por fora e rosa por dentro, que começou a ser utilizado para a realização de exposições, para atender visitas de estudo de escolas e grupos e acolher outras iniciativas de âmbito cultural. A satisfação da interlocutora face a esta viragem ideológica do monumento é notória no seu discurso, fluente e claro. “As pessoas começaram a consciencializar-se que o Panteão é um local onde se pode também homenagear a vida e por isso organizamos bastantes actividades vocacionadas para os mais jovens”.


A cidade de Iria
Iria Caetano revela que, apesar da sua carreira se ter desenvolvido em Lisboa, continuou a visitar Tomar “com muita frequência”, muito por causa de uma casa que os seu avô tinha em Paialvo e que hoje é sua. “Desenvolvi mais uma relação com a cidade no seu conjunto do que com pessoas individualizadas”, confessa, adiantado que acha Tomar “uma cidade muito agradável, que não cresceu desproporcionada e que conservou ao longo do tempo uma dimensão muito humana”. Assistiu às mudanças urbanísticas da cidade sem choque e com naturalidade. Só a Feira de Santa Iria já não é o que era dantes. “Quando era miúda adorava a Feira de Santa Iria para comer as farturas, ir ao circo e andar no carrossel. Era um dos acontecimentos mais emocionantes da cidade”. Visita assídua da feira de Outubro, a nossa interlocutora é da opinião que, nos últimos anos, a feira já não apresenta o aspecto “de grande o parque de diversões que era”, facto que lamenta. Mas, para além da Feira de Santa Iria, Iria Caetano destaca de Tomar o valioso património arquitectónico que a cidade colecciona. Nas suas palavras, “o Convento de Cristo é o monumento de eleição da cidade e a Praça da República é, indiscutivelmente, muito bonita em qualquer parte do mundo”. Mas além destes dois monumentos, há um que considera especial. “A Capela de Santa Iria é lindíssima”, diz com particular orgulho.

“A minha relação com Tomar é, e será sempre, profunda”, confessa. A nossa com Iria Esteves Caetano, depois desta entrevista, também a será, quase de certeza.

Entrevista publicada no Jornal O Templário em Agosto de 2004