Thursday, September 02, 2004

Iria Esteves Caetano

Directora do Panteão Nacional

“A minha relação com Tomar será sempre profunda”

Iria Esteves Caetano nasceu em Tomar a 20 de Outubro de 1949 e por isso “ganhou” o nome da santa da cidade. Actual directora do Panteão Nacional, considera que este monumento alcançou uma maior visibilidade pública depois da cerimónia de transladação do corpo de Amália Rodrigues, a 8 de Julho de 2001, com as grandes romarias de gente anónima que ali se deslocaram para prestar homenagem à diva do fado nos meses que se seguiram e que continuam a ocorrer até hoje. “Depois de Amália acho que as pessoas olham para o Panteão Nacional com serenidade e acho que é esse um dos objectivos de um panteão, transformar um processo doloroso num processo de aceitação”, disse-nos. Na entrevista que concedeu ao nosso jornal, Iria Caetano recorda ainda, sempre de forma optimista e sem qualquer tipo de saudosismo, a cidade da sua meninice e a feira de Santa Iria “das farturas, dos carrosséis e do circo”. Uma tomarense fascinante, que “O Templário” foi conhecer melhor.

Iria, como a Santa
Filha, sobrinha e neta única, Iria Esteves Caetano nasceu “em cuidados” numa clínica particular, na Rua Serpa Pinto. “O meu pai perguntou ao meu avô que nome se havia de dar à criança e este respondeu que, se nasceu no dia da Santa, é justo que seja Iria”. Foi assim que nasceu Iria. Durante muitos anos teve uma certa dificuldade em compatibilizar-se com o seu nome pois, naquela época, todas as suas amigas se chamavam “Ana Maria, Margarida e Helena” e o facto de ter um nome invulgar causava-lhe “alguma estranheza”. Só mais tarde é que começou a achar graça ao seu nome. E nunca é demais relembrar a história da Santa Iria. Reza a lenda que, numa quinta dos arredores da cidade, viviam Hermegido e Eugénia, que tiveram uma filha de nome Iria, “tão rica em dotes físicos como morais”. Quando a jovem atingiu a adolescência, Célio, seu tio materno, confiou a sua educação ao monge Remígio, que considerava “digno de tão delicada missão”. Iria conseguiu reunir, desde logo, a simpatia das pessoas da povoação, em especial a dos moços e fidalgos, que disputavam entre si as virtudes da jovem. No leque de pretendentes, destacava-se o jovem Britaldo que, rendido a tanta beleza, se apaixonou loucamente por Iria, chegando mesmo a adoecer por causa desta paixão. Iria, movida pela caridade cristã, convenceu-o da impossibilidade do seu casamento, pois fizera voto de virgindade. Deste amor, teve conhecimento o monge Remígio, a quem a beleza da donzela também não era indiferente. Louco de ciúmes, o monge fez com que Iria tomasse uma tisana embruxada, provocando-lhe sinais de gravidez. Britaldo, julgando-se enganado pela jovem, encarregou um subordinado de matar Iria. E assim, a 20 de Outubro do ano 653, quando Iria rezava devotamente as suas orações numa capelinha junto ao rio Nabão, Banaão, enterrou-lhe no peito um punhal, e lançou o seu corpo às águas. O corpo de Iria, segundo reza a lenda, seguiu rio abaixo, sendo repelido na Barquinha, afastado da Chamusca, indo parar finalmente em “Scalabis”, onde milagrosamente a envolveu um sepulcro de mármore. A partir daí “Scalabis” tomou o nome da Santa Virgem e Mártir, Sant' Irene, hoje Santarém.



De Tomar para Santarém, como a Santa
Iria Esteves Caetano estudou no Colégio Nun’Alvares até aos doze anos de idade. “Ainda sou do tempo do Dr. Raúl Lopes”, recorda ao “O Templário”. Desses tempos, Iria Caetano lembra-se particularmente “do terraço do colégio feminino” onde “as meninas estavam proibidas de chegar às grades por causa dos meninos”. O seu percurso escolar no colégio foi interrompido quando o pai foi trabalhar para o Tribunal do Trabalho de Santarém e levou a família com ele. “Fiz um pouco o percurso da Santa Iria de Tomar para Santarém”, brinca a interlocutora. Viveu na capital de distrito até aos 16 anos, altura em que, uma vez mais devido à mudança de trabalho do pai, vai viver para Lisboa, tendo vindo a acabar o liceu no Maria Amalia Vaz de Carvalho. Seguiu-se a entrada na faculdade em 1969, onde ingressou no curso de Filologias Germânicas, na Universidade Clássica de Lisboa. A escolha do curso deveu-se a um certo “fascínio”, na época, pela cultura anglo-americana. “Naquele tempo tudo se passava em Londres”, revela-nos e este era “um curso próprio para meninas” que estavam “destinadas” a ser professoras. Mas, no caso particular de Iria Caetano, este curso foi “uma escolha pessoal, não pressionada”. Seguiu-se uma segunda licenciatura no curso de Línguas e Literaturas Modernas porque, segundo nos conta, depois de Londres ,“tudo o que era interessante passou a vir de Nova Iorque”.

O caminho de Iria
A carreira de Iria Esteves Caetano evoluiu de maneira gradual e interessante. “Comecei a como professora”, revelou-nos. Ficou a dar aulas no Liceu Pedro Nunes, em 1979, e foi professora durante 5 ou 6 anos. Ao fim deste tempo e devido ao surgimento de alguns problemas de voz, começou a viragem em termos profissionais. “Achei que com a idade iria sofrer bastante com problemas de garganta”, revelou-nos, pelo que quando, em 1983, surgiu a oportunidade de trabalhar como técnica superior do Departamento de Museus do Instituto Português do Património Cultural (IPPC) não hesitou. “A partir daí nunca mais deixei de gostar das áreas da cultura e património”, confessou.
Trabalhou durante seis anos no Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) e, a certa altura, é convidada para funções de chefia de divisão para as Relações Exteriores, porque dominava 4 línguas e tinha experiência a dar aulas. Em Portugal, viviam-se os tempos de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia e Iria Caetano participa em muitas das reuniões que se fazem em Estrasburgo.
Estamos, então, em 1997, e estava vaga a direcção do Panteão Nacional, monumento que se encontrava “apagado” em termos de visibilidade pública. “Fui convidada para ir levantar aquele monumento e aceitei”, recorda com algum embargo na voz.


O destino de Iria
O Panteão Nacional é, para a nossa interlocutora, um monumento com uma “carga simbólica profunda”, uma vez que aborda a relação das pessoas com o seu destino ou seja com o ciclo natural “vida e morte”. Embora este seja o “monumento próprio” para homenagear a vida e obra das grandes figuras da sociedade portuguesa, para Iria Caetano é evidente que “quando se pensa na morte de uma grande personalidade relacionamos essa perda com a partida daqueles que nos são mais próximos”. Iria Esteves Caetano é bastante pragmática no que diz respeito ao destino de cada um. “Um momento de despedida tem sempre uma carga bastante profunda e violenta pelo que temos que fazer da nossa vida o melhor que pudermos”, afirma. Mas, para a directora do monumento, não é a morte o que se pretende evocar no Panteão Nacional. “O Panteão não é um grande jazigo”, afirma convictamente. “Quando iniciei funções, deparei-me com um monumento que estava degradado e que desde 1966 não era alvo de obras”, contou ao “O Templário”. Fizeram-se, então, obras de rejuvenescimento no Panteão durante o ano 2000, obras a cargo do IPPAR, com o objectivo de nele se realizarem diferentes actividades culturais. Desde então, a “vida” entrou dentro do monumento, branco por fora e rosa por dentro, que começou a ser utilizado para a realização de exposições, para atender visitas de estudo de escolas e grupos e acolher outras iniciativas de âmbito cultural. A satisfação da interlocutora face a esta viragem ideológica do monumento é notória no seu discurso, fluente e claro. “As pessoas começaram a consciencializar-se que o Panteão é um local onde se pode também homenagear a vida e por isso organizamos bastantes actividades vocacionadas para os mais jovens”.


A cidade de Iria
Iria Caetano revela que, apesar da sua carreira se ter desenvolvido em Lisboa, continuou a visitar Tomar “com muita frequência”, muito por causa de uma casa que os seu avô tinha em Paialvo e que hoje é sua. “Desenvolvi mais uma relação com a cidade no seu conjunto do que com pessoas individualizadas”, confessa, adiantado que acha Tomar “uma cidade muito agradável, que não cresceu desproporcionada e que conservou ao longo do tempo uma dimensão muito humana”. Assistiu às mudanças urbanísticas da cidade sem choque e com naturalidade. Só a Feira de Santa Iria já não é o que era dantes. “Quando era miúda adorava a Feira de Santa Iria para comer as farturas, ir ao circo e andar no carrossel. Era um dos acontecimentos mais emocionantes da cidade”. Visita assídua da feira de Outubro, a nossa interlocutora é da opinião que, nos últimos anos, a feira já não apresenta o aspecto “de grande o parque de diversões que era”, facto que lamenta. Mas, para além da Feira de Santa Iria, Iria Caetano destaca de Tomar o valioso património arquitectónico que a cidade colecciona. Nas suas palavras, “o Convento de Cristo é o monumento de eleição da cidade e a Praça da República é, indiscutivelmente, muito bonita em qualquer parte do mundo”. Mas além destes dois monumentos, há um que considera especial. “A Capela de Santa Iria é lindíssima”, diz com particular orgulho.

“A minha relação com Tomar é, e será sempre, profunda”, confessa. A nossa com Iria Esteves Caetano, depois desta entrevista, também a será, quase de certeza.

Entrevista publicada no Jornal O Templário em Agosto de 2004

4 Comments:

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