Monday, September 06, 2004

Levanta-te e Colabora

Como é gravado um programa ao vivo


Assistir à gravação ao vivo de um programa de “stand-up comedy” como o “Levanta-te e Ri” (SIC, 2ª Feiras, 24h00) é ganhar automaticamente direito a duas horas e meia de boa disposição. Antes do programa entrar em casa dos telespectadores já faz quase meia hora que o brasileiro Dinho anima o público, contando piadas e interagindo com a plateia. “Atenção aí ó people... Faltam dez minutos para o programa começar..”, avisa, bracejando veemente. Ainda há cadeiras vazias na sala. “Os bilhetes estão todos vendidos?”, pergunta o brasuca. “Não”, indica um elemento da equipa de produção. “Xi... danou-se”, responde Dinho, provocando uma gargalhada geral na plateia. “Apaguem os cigarros, todos a sentar direitinho nas cadeiras!”, ordena com humor.

Com o bilhete na mão, à espera que o espectáculo comece está Tiago Freitas, um jovem de 16 anos que conseguiu convencer a mãe Helena a acompanhá-lo. “Venho porque acho piada ao programa, que vejo sempre na televisão”, diz com um grande sorriso. Ver o Fernando Rocha, o seu artista preferido, foi a grande motivação do Tiago que não se importou de pagar 10 euros para ter acesso a um lugar no Fórum Luisa Tody, em Setúbal. O tempo passa rapidamente. Antes do programa começar pede-se a colaboração do público e ensaiam-se os chavões do agente Simões e do Fernando Rocha. “Por favor sorriam na hora em que vos filmarem”, pede o brasileiro à plateia.

O ambiente na sala é muito descontraído e o público ouve atentamente o produtor. “Desliguem os telemóveis e deitem as pastilhas elásticas fora”. Fazem-se os últimos testes ao som e pede-se ao público para bater palmas, assobiar, fazer barulho. Depois dos testes, o silêncio predomina e faz-se a contagem decrescente para entrar em directo.

00h17m - Marco Horácio entra e a plateia delira espontaneamente. Desta vez, e como o programa está a ser transmitido em directo da cidade de Setúbal, não faltam referências humorísticas a Odete Santos, José Mourinho e nem o “Elmano Sadino”, Barbosa de Bocage, escapa ao rol espirituoso. “Se Bocage foi preso por ter escrito poemas eróticos o que é que aconteceria a Carla Matadinho naquela altura?”, remata antes de anunciar a entrada de Milton, o primeiro humorista a actuar esta noite, que entra a matar “Tenho duas notícias para vós: uma boa e uma má... a boa é que Durão Barroso vai-se embora do país. A má é que Paulo Portas fica.” A gargalhada é geral. O espectáculo continua com a intervenção de Eduardo Madeira. Lili Caneças é a vitima preferida na actuação desta noite deste cómico, que integra o divertido dueto musical Cebola Mol.

Chega ao fim a primeira parte e a correria instala-se na plateia. O brasileiro Dinho volta a subir ao palco e lança um aviso. “Atenção público, atenção assistentes, são 9 minutos de intervalo apenas”. As pessoas cumprem a ordem e levantam-se apressadas. Muitos vão para o hall matar o vício, enchendo o espaço de fumo. A fila na casa de banho não é grande mas o bar está cheio. Os operadores de câmara falam entre si e o pessoal da equipa de produção combina os detalhes da segunda parte. O tempo passa rapidamente e Dinho avisa o público que “está na hora de todo o mundo sentar”. Observa a sala atentamente e pergunta apontando para uma cadeira vazia “Falta alguém aí?” Respondem que não e o animador pede para toda a gente se levantar e avançar uma cadeira. O público colabora sem qualquer tipo de hesitação.

01h10m – Começa a segunda parte do programa. “E salta Horácio, e salta Horácio, Olé, Olé”, entoa a plateia. O agente Simões entra em cena e o público dispara o que ensaiou antes do programa começar. Dinho dá uma ajuda aos mais esquecidos e levanta os braços, qual maestro a conduzir a sua banda. Apesar do avançado da hora vive-se um ambiente de energia contagiante na velha sala de espectáculos. “Dizem que os africanos tem mais poder sexual que os europeus... mas, por acaso, o Zézé Camarinha é angolano? O Tomás Taveira é guineense?”, dispara o apresentador. Nova risada geral. Para captar a expressão feliz do público um operador de câmara móvel e um colega, que segura o cabo, suam as estopinhas e percorrem toda a sala num vaivém desenfreado. O objectivo é surpreender o público a rir, filmando bem de perto algumas carinhas larocas que piscam o olho para a objectiva.

Novo intervalo, nova correria. “Não se esqueçam de tirar a pastilha elástica antes de entrarmos no ar”, avisa Dinho. “Está a ser um bom espectáculo”, dizem as amigas Rita e Sandra, ambas de 19 anos, que esta noite vieram para ver o Bruno Nogueira mas viram as suas expectativas goradas pois o nome do jovem não faz parte das actuações da noite. Susana e Pedro, um simpático casal de namorados, espectadores assíduos do programa em casa, aproveitaram o facto de estar de férias para se divertirem um pouco. “É a primeira vez que assistimos à gravação de um programa e está a ser muito engraçado”, diz a jovem. Os 9 minutos de intervalo passam rapidamente mas ainda há tempo para ensaiar uma vez mais o refrão da entrada de Fernando Rocha, que já está na ponta da língua de todos. Batem-se muitas palmas e... já estamos na terceira parte e última parte do programa.

01h48m – Depois de Marco Horácio, entra em cena o mais esperado da noite Fernando Rocha. A maioria não sabe, mas a repórter descobriu que o artista traz o mesmo repertório da semana passada, uma vez que nessa emissão um corte de energia interrompeu abruptamente a transmissão para casa. Quando Rocha menciona o nome Tíbúrcio o publico ri desalmadamente, mesmo antes da anedota ser contada. “És o maior”, grita alguém da plateia. “Vocês é que são os maiores”, responde o artista. O espectáculo prossegue e, por razões linguísticas, não podemos descrever aqui o que se passou. Podemos apenas garantir que foi muito divertido.

02h16m – Acaba o programa. Os artistas sobem ao palco e despedem-se. As pessoas levantam-se, sem pressa, e continuam a comentar o espectáculo. “Foi muito divertido”, ouve-se na sala. Nós confirmamos.


Fernando Rocha


“Vou beber inspiração ao público”

No final do espectáculo, o camarim improvisado de Fernando Rocha encontra-se cheio de pequenos fãs que querem um autógrafo ou tirar uma fotografia com o artista. Apesar de estar visivelmente cansado, Rocha atende-os com simpatia, diz mais umas piadas, mete-se com os mais tímidos. “Vou beber inspiração para as minhas personagens ao público e aos meus amigos”, revela. De facto, é preciso muita imaginação para reinventar em cada espectáculo novas situações para a Rosa Peixeira, a Mantubina, o Tone e o Tibúrcio. “Vejo sempre o lado engraçado das coisas por mais macabra que seja a situação”, diz, enquanto assina a t-shirt de mais um fã. Em relação ao seu estilo picante de humor, Fernando Rocha diz que é muitas vezes abordado na rua por pessoas mais velhas que dizem não aprovar a sua verbosidade. “O caso mais engraçado que tive recentemente foi uma senhora, de idade já avançada, que me abordou na rua e disse que ouviu o meu Cd e que este continha muitos palavrões”. O artista tentou desculpar-se e respondeu que era natural haver palavrões uma vez que é o estilo “a que habitualmente recorre”. A senhora confirmou novamente, replicando “pois é, e a anedota número 25 é a piorzinha delas todas”.

2 Comments:

Blogger Leonel Vicente said...

Obrigado pelo comentário e pelo link ao "Tomar"!

11:29 AM  
Blogger pulguita said...

Gostei imenso deste levantamento que fizeste do programa televisivo "Levanta-te e Ri". Já lá vai o tempo em que eu aproveitava cada momento que vivia para ir reportando todos os pormenores!... E o mais curioso é que uma semana depois lembrava-me de tudo, tal e qual como escrevera...

Concordo contigo no que diz respeito a um post do "Diário de um Jornalista". Esta profissão tem muito por onde debater... Infelizmente ainda continua a haver pessoas sem saberem separar profissionalismo de vida privada/pessoal...

Gostei do teu blog. :)
Voltarei para continuar a ler teus textos...

10:31 AM  

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