Thursday, November 18, 2004

Orlindo Gouveia Pereira



Apresentou recentemente importantes conclusões sobre um estudo que levou a cabo durante 10 anos sobre o uso de Álcool e Drogas no meio laboral, onde refere que em Portugal as empresas apresentam “alguma tolerância” em relação ao consumo do álcool nos locais de trabalho e que existem cerca de 1 milhão de pessoas em Portugal “que abusam do álcool”. Mas Orlindo Gouveia Pereira, médico e especialista na àrea da Psiquitria, teve uma vida rica de experiências que partilhou com “O Templário”. Sobre Tomar, onde nasceu há 65 anos, diz que é uma cidade “universal” porque o feito dos “Templários” são conhecidos e falados por todo o mundo. Mas existe muito mais para revelar...


Orlindo Gouveia Pereira nasceu em Tomar, na Rua da Fábrica, a 16 de Junho de 1939, e viveu na cidade do Nabão até aos 17 anos, altura em que acabou o liceu. Estudou na Escola primária N.º 1, na Várzea Grande, onde entrou em 1945, tendo mais tarde frequentado o Colégio Nun’Alvares. Da sua meninice recorda “o Mouchão” para onde ia “estudar e brincar com os amigos”, lembra o Convento de Cristo e o Castelo, “uma parte da cidade que excitava a imaginação de todos” e ainda a Várzea Grande que, na altura, considerou ter sido “um crime” construirem naquele largo o edifício do Tribunal. “Uma vez escrevemos para O Templário a dizer que era uma desgraça construir lá o tribunal porque estavam a dar cabo de um largo que podia ser enorme e que, tal como o conhecemos agora, ficou um espaço muito mais estreito”, recorda. Mas essa não foi a única vez que colaborou com o nosso jornal. Orlindo Gouveia Pereira diz que se tornou colaborador d ‘ O Templário porque conhecia o Nini (Fernando) Ferreira, na altura director da publicação, quando o jornal ainda se fazia na Gráfica Havaneza, perto da casa onde vivia. “Escrever n’O Templario era, na altura, uma espécie de revolução”, diz-nos. E lembra-se de um episódio muito particular onde conheceu de perto o peso do lápis azul. “Uma vez a censura cortou o texto que eu e uns amigos redigimos e então publicamos os Lusíadas como forma de desmascarar esse acto”, recorda a rir. Para Orlindo Gouveia Pereira, “a piada de escrever no O Templário residia em driblar a censura”, escrevendo as coisas de forma a passar informação que se queria mas de modo a que não fosse censurada. E muitas vezes o conseguiram.


A juventude, a medicina e os EUA
Quando acabou o 7.º ano entrou para Medicina Geral, na Faculdade de Medicina de Lisboa, e fez o curso, com duração de 7 anos, sem problemas pelo meio. Depois do curso, acabado com distinção, entrou como médico para a Marinha, que era, segundo nos contou, “o serviço mais desejado pois era o mais civilizado”. Pelo meio, e “graças a umas licenças”, ainda tirou o curso de Ciências Pedagógicos “para adiar a ida para a guerra” mas teve mesmo que ir e esteve 16 meses na Guiné. “Quando voltei resolvi ir estudar para os Estados Unidos onde estive 4 anos a fazer o doutoramento em Psicologia e a trabalhar em investigação”, revelou-nos. Estávamos em 1968 e só regressaria ao nosso país em 1972. Dos Estados Unidos trouxe boas recordações embora nunca tivesse pensado em ficar a viver lá para sempre. “É uma sociedade muito crispada onde as pessoas processam-se por tudo e por nada”, refere, recordando um episódio emblemático que viveu: “Uma rapariga portuguesa foi-me visitar, a mim e à minha mulher, e como tinha cabelo preto foram fazer queixa ao FBI e eles foram a nossa casa pedir explicações sobre ela”. E da sua passagem pelo “grande continente” recorda outro episódio que apelida de “caricato” e cuja memória lhe traz um sorriso doce ao rosto. “Antes de acontecer o 25 de Abril, eu já estava na àrea da psiquiatria, orientado pelo professor Barona Fernandes, e fiz um estágio nesta àrea no Massachussets General Hospital”. Até aqui tudo normal. Mas quando chegou a Portugal trazendo os papéis do estágio efectuado para serem “averbados” e para fazer o exame psiquiátrico, na Ordem dos Médicos ninguém sabia onde se encontrava o seu processo. Quando lhe perguntaram quando tinha feito o estágio e respondeu ter sido em 1967 responderam-lhe que já o consideravam Psiquiatra devido às chamadas passagens administrativas. “Eu tinha feito um estágio para ser psiquiatra que já não era preciso fazer para me tornar especialista”, recorda sempre a sorrir.


O ensino universitário e a carreira de investigação
É em 1972 que começa a sua carreira de docente em várias universidades do país, onde o ensino da Psicologia “não era frequente” embora, segundo nos conta, “mais tarde acabasse por se tornar a ser”. Orlindo Gouveia Pereira contribuiu francamente para isso. “Escrevi um artigo no Diário de Lisboa sobre a abertura dos cursos oficiais de Psicologia que fez muita mossa na região de Lisboa”, revelou-nos. O curso de Psicologia foi instalado pela primeira vez como curso autónomo na Faculdade de Letras e depois criou-se a Faculdade de Psicologia. Mas não foi a´que trabalhou. “Quando regressei a Portugal resolvi ir para onde havia dinheiro e por isso escolhi leccionar na Faculdade de Economia”, refere-nos, salientando que ali se encontrou ao serviço da docência durante 25 anos. Simultânemente foi “fazendo outras coisas” entre as quais investigação.
Orlindo Gouveia Pereira começou-se a interessar pela psiquiatria por causa da pintura dos doentes mentais, tendo inclusivé elaborado a sua tese de final de curso sobre esat matéria. Este interesse levou-o a publicar dois livros sobre pintura um de Van Gogh e outro sobre os Tratados da Água de Leonardo da Vinci, “na altura da Expo 98” quando se falava muito em oceanos. “Também tive interesse por outras àreas, como a dermatologia, mas acabei por escolher exercer psiquiatria”, confessou-nos.
Mas o assunto ao qual dedicou mais tempo a estudar foi a temática do Stress, sempre apoiado pelo Instituto de Investigação das Forças Armadas Americanas, porque considera que o stress “as pessoas dizem muitas coisas exageradas sobre o Stress”. Uma das principais conclusões que defende é que o stress pode ser “moderado” pelas Direcções Superiores das empresas, existindo uma “ligacão directa” entre o stress e a liderança. “Se as pessoas que estão a frente das organizações tomarem as medidas adequadas podem fazer com que os seus colaboradores trabalhem com muito menos stress”, defende.
Um outro estudo de investigação que levou a cabo durante dez anos, e cujas conclusões foram apresentadas recentemente, incidiu sobre a temática das Toxicodependências e foi “encomendado” pela Comissão Europeia e pela Organização Internacional do Trabalho.
Deste trabalho, segundo nos revelou, resultou um livro, publicado em Setembro e que já vai na segunda edição. Deste estudo conclui-se que “o absentismo e redução da produtividade são os principais efeitos do uso da droga e do álcool no local de trabalho e que existem cerca de um milhão de alcoólicos em Portugal, 700 mil dos quais crónicos”.

O 25 de Abril e a viagem á volta do mundo
Da vida rica e experimentada de Orlindo Gouveia Pereira existem dois episódios particulares que não resistimos a contar. O primeiro remonta à forma como viveu a revolução de 25 de Abril de 1974. “Tinha mudado de casa na véspera para o Restelo e, na manhã do 25 de Abril, como não sabia onde era a mercearia levantei-me muito cedo para comprar leite para as minhas filhas”, começa por contar. No caminho ouviu no rádio a notícia da revolução à qual deu somenos importância. Quando regressou a casa uma empregada da vizinha questionou-o se, mesmo com a revolução a acontecer, ia levar as filhas à escola. Só aí acreditou no que estava a suceder. “Eu tinha que entrar de serviço no Hospital às duas da tarde e então meti-me no carro e atravessei Lisboa do Restelo até ao Campo de Santa Clara”, recorda. Quando entrou ao serviço “ficou tudo muito admirado” como é que tinha conseguido atravessar Lisboa com uma revolução a acontecer nas ruas da cidade. Nessa noite disseram-lhe que tinha que ir buscar um almirante americano que estava, em frente ao Tejo, com uma cólica renal. Nessa situação, Orlindo Gouveia Pereira diz que viu uma coisa que “nunca mais ninguem há-de ver” e que foi uma “Lisboa completamente vazia, sem um carro ou uma pessoa na rua”.
O outro episódio que o marcou foi a viagem que fez, durante 6 meses, num navio de Guerra à volta do mundo. “Certa vez, quando trabalhava no Hospital da Marinha, tivemos que ir em missão a Timor e atravessamos o mundo”, recorda. Primeiro chegaram ao Canal do Suez e, aponta, foram “o primeiro navio português a passar por lá”. Depois estiveram no Porto de Iemen, onde na altura havia um regime comunista, e onde não os deixaram tirar fotografias. “O Iemen era um país muito pobre mas foi onde vi mirra pela primeira vez”, disse-nos. Dali foram para o Siri Lanka onde foram “muito bem recebidos”. Seguiu-se a Austrália e, finalmente, chegaram à Ilha de Atambur, em Timor.
“Estávamos entregues a nós próprios e Lisboa não tinha poder, não mandava em nada”, refere. Na viagem de regresso passaram por Macau, Hong Kong, Japão, EUA, atravessaram o Pacífico, tendo encontrado ao longo da epopeia muitos portugueses. “Nunca mais esqueci esta viagem”, diz Orlindo Gouveia Pereira.

Tomar, cidade universal
Orlindo Gouveia Pereira considera que “Tomar é uma cidade universal”, e umas das poucas do país que tem essa caracteristica, “por causa dos Templários” e de toda a simbologia do Convento de Cristo. A mais valia da cidade é para o nosso entrevistado o centro histórico que acredita que “vale a pena recuperar”. Orlindo Gouveia Pereira é da opinião que se deve fechar o trânsito “em todas as ruas” do centro histórico de modo a poder ser perservado e para que “o turismo continue a florescer”. Considera ainda que é “essencial” existir um parque de estacionamento naquela zona porque senão corre-se o risco de “deixar morrer o centro histórico”. Na sua opinião, um dos pontos fortes da cidade é, quando se entra de comboio, e se avista logo o Castelo e o Convento de Cristo “lá em cima”. Um dos pontos fracos é “a mentalidade das pessoas que reagem negativamente a todas as inovações”, aponta.
Além disto, para Orlindo Gouveia Pereira, a cidade tem que se reiventar. “Tomar tem que inventar qualquer coisa para continuar a evoluir”, refere, alegando que “a indústria foi-se” e que a “batalha dos acessos rodoviários não foi ganha”, uma vez que a auto-estrada “está um pouco afastada da cidade”. O nosso entrevistado considera que se devia “investir mais no Instituto Politécnico de Tomar” (IPT), que considera ser “o principal injector da economia” em Tomar, sugerindo mesmo a criação de uma “Fundação de apoio” ao Politécnico. “As pessoas pensam que o Politécnico de Tomar fica para sempre mas não é assim, pode acabar um dia”, refere convictamente. Orlindo Gouveia Pereira considera ainda fundamental que se criem “novas indústrias” na zona de modo a combater a desertificação da cidade e para que esta continue a crescer. Mas Tomar também “tem muitas coisas boas”, salienta, referindo que “a Praça de Touros é lindíssima” e que, “felizmente” tem ouvido falar na realização de muitas actividades culturais na cidade que tanto ama.

Entrevista publicada no Jornal O Templário, a 11 de Novembro de 2004

4 Comments:

Blogger Paulo R. said...

Este foi um dos artigo que maior prazer me deu ler n"O Templário"! Desconhecia o entrevistado. É interessante conhecer pessoas de Tomar com uma vida como a de Orlindo Gouveia Pereira.

2:31 PM  
Anonymous Isabel said...

Ele foi meu professor na Universidade Lusíada do Porto. Embora reconheça a sua importância tive dificuldades em perceber as suas aulas..Utiliza uma linguagem extremamente complicada..mas nem tudo foi mau..também aprendi!! Recordo-me da história da rã..."O que o olho da rã diz ao cérebro da rã"...este estranho título encontra-se no Livro "Psicologia de Hoje" de Orlindo Gouveia...

3:29 PM  
Anonymous Lexapro said...

I am very happy to read this article..thanks for giving us this useful information. anti viral

1:08 AM  
Anonymous Anonymous said...

I am very happy to read this article..thanks for giving us this useful information. anti viral

3:04 AM  

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