Friday, February 18, 2005

Mestre Alfredo Rosa

“O Kickboxing controla a agressividade natural das pessoas”

Nascido em Setúbal há 48 anos, Alfredo Maria da Silva Rosa começou a praticar desportos de combate tardiamente, aos 29 anos, motivado pelo gosto que tinha pelo Boxe. Como não existiam escolas para esta prática na cidade do Rio Sado decidiu-se pelo Full-contact. E não passou muito tempo até vir a tornar-se “mestre” na arte de ensinar, imagine-se, Kickboxing, já lá vão quase 20 anos. Em entrevista à BOXING o mestre do Ginásio Costa Azul é claro: “O Kickboxing é algo que completa o meu bem-estar físico e psicológico”. Em 1999 a carreira de Alfredo Rosa atingiu um dos seus momentos mais altos quando foi eleito pela Federação Portuguesa de Kicboxing como o melhor treinador do ano, por ocasião dos bons resultados obtidos pela sua equipa no Campeonato do Mundo realizado em Lisboa.

A carreira de Alfredo Rosa inicia-se em 1985 quando se inscreveu na Escola do Mestre João Martinez, em Setúbal, onde aprendeu Full Contact. “A minha paixão não era o kickboxing, era o boxe, mas não haviam locais em Setúbal para a prática e acabei por virar-me para o Full”, revelou-nos. Alfredo Rosa tomou o gosto pela modalidade e pouco tempo depois de se iniciar na prática ficou apto para dar aulas, decidindo criar a sua própria escola. Em 1992 começa, assim, a ensinar Kickboxing na Escola da Associação de Bombeiros em Águas de Moura, altura em que se filia na Federação Portuguesa de Kickboxing. Em 1996 é, entretanto, convidado para ser Técnico Responsável dos Ginásios Costa Azul, prática que concilia com a actividade de padeiro. “Fui padeiro até Dezembro último”, refere, adiantando que os horários praticados no exercício desta sua profissão permitiram conciliar as duas actividades em paralelo. E nunca se sentiu desconsiderado por causa disso: “Há uma coisa que é muito importante de salientar em relação a este aspecto. As pessoas quando nos conhecem e sabem que somos da área respeitam-nos muito”.


Uma equipa unida
“Conquistámos a Taça de Lisboa no final do mês de Janeiro”, refere com visível orgulho o mestre Alfredo Rosa. “Disputámos a última de três fases, em seis disciplinas, e fomos (Ginásio Costa Azul) os que mais pontuámos a nível de Clubes conquistando a Taça pelo terceiro ano consecutivo”. Da equipa que treina, composta por atletas entre os 6 e os sessenta anos, 50 estão inscritos na Federação. A falta de um espaço próprio para os treinos é um problema que agora atravessam. “Estamos um bocadinho destroçados porque tinhamos um espaço próprio que tivemos que deixar. Estes ginásios ficam mais longe para alguns dos alunos e os horários dos treinos não ajudam.” Mas a solução está para breve: “Estamos em fase de transição e já temos em vista um espaço próprio que está em vias de construção”, refere satisfeito este mestre com graduação de cinto 3.º DAN. O ambiente que a BOXING presenciou durante um treino pareceu-nos de salutar convívio. “Treinamos uma vez por dia. É um ambiente familiar, conhecemo-nos todos e considero-os como uns filhos”, refere Alfredo Rosa. Depois do aquecimento inicial, o resto da aula depende dos objectivos. “Quando não há competições apuramos a parte da técnica. Quando se aproximam campeonatos puxo mais pela componente física”, esclarece. Mais complicado é explicar aos alunos novos, que entram quando se está a treinar para competições, que o treino é mais puxado naquela altura. “Já cheguei a trabalhar com atletas para competição e nesse dia aparecem alunos novos... Como chegam com uma imagem pré-concebida da modalidade, por vezes, assustam-se”. Nessas alturas, Alfredo Rosa tenta explicar ao aluno recém-chegado que o treino a que assiste está direccionado para o combate. “Já chegaram aqui pessoas em pânico e que desistem pouco depois. Outros, pelo contrário, dizem que isto não é tão violento como pensavam. Mas a maior parte fica com uma ideia mais positiva do Kickboxing”. E os ensinamentos que considera importantes para transmitir aos alunos são, sobretudo, “a vontade de fazer mais e melhor, o respeito pelo próximo e o espírito de entreajuda são princípios que se devem tornam práticas constantes no dia a dia”.


Kickboxing e Autocontrole

Para Alfredo Rosa, os amantes dos desportos de combate começam a praticar Kickboxing porque assistem às competições internacionais na televisão ou a filmes em que se pratica a modalidade. “É tudo uma questão de influências”, acredita. Para o mestre a imagem violenta que a maioria das pessoas tem do kicboxing é deitada por terra quando se começa a praticar. “Tudo o que se faz e ensina nos treinos não tem a ver com violência e é de fácil aprendizagem daí que haja pessoas com uma variedade de idades tão distinta que se encontram a praticar”. Alfredo Rosa é peremptório em relação às vantagens que se adquirem com a prática do Kickboxing: “É uma modalidade que completa o desenvolvimento físico, proporciona autocontrole e desenvolve a autoconfiança”.
Pedimos a sua definição deste deporto de combate: “A ideia que tenho do kicboxing, ao contrário do que se pensa, é que não estimula a violência mas antes canaliza o controle da agressividade natural das pessoas.” A prática da modalidade está presente 7 dias por semana na vida deste mestre, aproveitando para planificar treinos e rectificar práticas ao fim-de-semana. “É uma modalidade de combate que já está enraizada na minha maneira de viver”, confessa à Boxing.
O autocontrole que tem reconhece que o deve à prática do Kicboxing. “Fui durante muitos anos padeiro mas agora sou cobrador do Vitória Futebol Clube e deparo-me com situações um bocado melindrosas, especialmente quando o Vitória perde os jogos”, começa por explicar com algum humor. “Se não fosse o kickboxing talvez me exaltasse mais com certas reacções das pessoas e assim encaro as coisas com mais suavidade”. A componente da defesa pessoal é bastante trabalhada nas suas aulas. “O kickboxer deve saber, antes demais, como se defender do agressor”, refere, acrescentando que “não se trata de uma arte marcial mas é antes uma modalidade de combate que tem como objectivo simplificar a execução de técnicas apreendidas”.


Competições e prémios

“O Kickboxing é um desporto maioritariamente masculino”, reconhece o nosso entrevistado. Na equipa do Ginásio Costa Azul são quatro senhoras entre mais de 40 atletas. Na sua opinião, “a sociedade ainda não vê as mulheres a praticar os chamados deportes de combate e elas, à partida, já se sentem inferiorizadas neste campo”. Mas, segundo a opinião de Alfredo Rosa, as mulheres são “mais fiéis” à prática e não desistem facilmente. “Tenho como aluna a Inês Vigário, que tem quase tanto tempo de atleta como eu tenho de carreira de Técnico”, exemplifica.
Os prémios, distinções e medalhas já são uma constante na carreira do mestre Alfredo Rosa. “Nos últimos anos tenho ganho muitos títulos colectivos e em1999 tive 3 atletas a participar no campeonato do mundo, dois dos quais foram medalhados (Prata e bronze)”, refere orgulhoso. A Taça de Portugal também já foi conquistada pela equipa que treina. Lamenta, no entanto, a falta de apoio em relação à modalidade. “Ás vezes a vida não dá para acompanhar os atletas com a frequência que desejamos e até estou convencido que se assim fosse os resultados seriam outros”. Para o mestre com a falta de apoios, as condições de trabalho a nível de competições internacionais adversas os resultados obtidos ficam muito aquém das expectativas. “Há valores que não são aproveitados em virtude da falta de condições para o acompanhamento dos seus treinos”, acredita. Mesmo assim, Alfredo Rosa mantêm a esperança e confessa a Boxing o seu sonho, que pensa estar prestes a realizar-se. “Gostava de treinar uma equipa de Kickboxing que representasse o Vitória de Setúbal e levasse o nome da cidade por este mundo fora. Estou, no momento, a elaborar o projecto e penso que vou conseguir”. Caso se concretize, Alfredo Rosa acredita que vai ser tudo muito mais fácil. “Quer em termos de divulgação, quer em termos de apoios e patrocínios penso que se as pessoas vão aderir mais à modalidade” E acaba com um exemplo com o qual temos que concordar : Se tivesse sido vencedor da Taça Portugal pelo Vitória de Setubal seria muito mais apoiado e a modalidade mais promovida.”

Reportagem publicada na revista BOXING - Desportos de Combate, edição Fevereiro 2005

Tuesday, February 15, 2005

Manifestação motard no Parlamento

Mais de mil motociclistas, vindos de todo o país, reuniram-se no passado domingo em frente à Assembleia da República para exigirem que Portugal adopte uma directiva europeia que habilita os automobilistas a conduzirem motos sem terem necessidade de tirar uma licença específica.

Num ambiente calmo demais para o que se pretende de uma manifestação, fomos encontrar à porta da Assembleia da República centenas de motas estacionadas numa iniciativa desenvolvida pela Federação Nacional de Motociclismo que pretende promover o uso dos veículos de duas rodas, considerado pelos responsáveis da campanha como um meio “mais barato, ecológico e seguro” do que o automóvel.

“Hoje a assembleia está por nossa conta”, ouvia-se num altifalante. A mensagem era dirigida aos mais de mil motociclistas que se reuniam em frente da escadaria do Parlamento. “Escolhemos esta data para nos manifestarmos porque estamos em período político considerado neutro”, explicou á reportagem de “O Crime” José Manuel Francisco, vice-presidente da Federação Nacional de Motociclismo. O “motard” pretende que “quem venha governar a seguir” coloque a questão das equivalência da carta de condução “na agenda política nacional” e que se venha a permitir que os automobilistas conduzam motos de pequena cilindrada até 125 cc. Segundo José Manuel Francisco, a adopção desta directiva só traria benefícios ao país “por uma questão de mobilidade, de gestão de espaço urbano e de redução de poluição atmosférica”, fundamenta.

O conhecido actor Victor Norte, “motard” assumido, também veio apoiar a iniciativa. “Estou aqui por menos poluição, menos gastos de energia, menos trânsito, mais lugares para estacionar”, disse à reportagem de O Crime. Para o actor “os motoclubes têm trabalhado muito pela luta dos direitos de quem adoptou as duas rodas para se deslocar” e “o facto de estarem reunidos mais de mil motociclistas” aqui mostra bem a força dos motociclistas portugueses.


Votação antecipada

“Vamos entregar aos deputados que se encontram lá dentro uma cópia da petição. É um acto simbólico, uma vez que as 20 mil assinaturas serão entregues ao novo executivo “ explicou ao “O Crime”, António Manuel Francisco, reportando-se ao que se iria passar. E na concentração os "motards" encenaram um momento eleitoral votando a favor da directiva comunitária, entregando depois o resultado ao deputado social-democrata Rodrigo Ribeiro, que desde sempre se manifestou publicamente como um defensor das causas dos motociclistas portugueses. "Não sou um político a brincar com as motos, mas um motard que brinca com a política e orgulho-me em representar estes 600 mil portugueses", disse em alto e bom som, para gáudio dos manifestantes que o aplaudiram. O deputado social-democrata, que afirma ter lutado ainda pela votação de uma legislação para protecção dos rails, disse que vai “abraçar” esta causa como sendo sua, comprometendo-se a entregar na Assembleia da Republica os votos de todos os que se reuniram na manifestação de domingo.


Mónica, a motard solitária
Conhecida no meio motard português, fomos encontrar na multidão a extrovertida Mónica Lopes, uma “motard” de 32 anos que adoptou a alcunha de Solitária. “Tenho este nome porque fui apadrinhada pelo motard Solitário de Évora e porque viajo sempre sozinha na minha mota de 50 cc que comprei há 10 anos. Segundo esta motard, “há uma diferença muito grande entre motards, motociclistas e motoqueiros”, sendo os últimos os que, na sua opinião, “denigrem” a imagem do motard. Mónica Lopes, ostentava ainda no seu colete o pano do Motoclube de Estremoz cosido ao contrário. Explicou-nos o porque deste acto: “Estou de costas viradas para este Motoclube porque apesar de ser sócia, por razões que sei pessoais, impediram a minha entrada na concentração de Estremoz em Outubro passado”, desafou revoltada.


O que é a Directiva Comunitária 91/439/C
Estabelece a permissão dos possuidores de licenças de condução de veículos ligeiros (automóveis) conduzirem também motociclos até 125 cc, com potência máxima de 11 kw, como os demais países da União Europeia.


Texto publicado no Jornal "O Crime" , a 17-02-2005, por Elsa Ribeiro Gonçalves